domingo, 7 de março de 2010

Fumaça cinza e nublada

Mas então uma nuvem teimosa, daquelas em tom de cinza-escuro resolveu esconder o sol. Problema não havia, pois minha sessão fotográfica terminara e tudo que eu via era aquele bando de pestinhas voltarem para o ônibus, acompanhados de suas rechonchudas professoras de voz doce que caminham feito focas. Só com muita paciência mesmo para suportar toda essa agitação pela manhã. Ainda bem que no caminho para cá, a minha se instalou. Não sei de onde veio, mas pouco importa. O trabalho estava concluído, pelo menos a parte chata. Era só levar tudo para casa e trabalhar agora na parte boa desse negócio, pelo menos para mim.

Editar as fotos e analisar cada expressão, fato e forma retratados é terapêutico. Gosto de conhecer as pessoas através de seus trejeitos e peculiaridades, coisa que minha mente distraída só me permite fazer em meio a programas de edição, revelações e toda essa parafernália dos infernos, que me traz o céu. Sento sobre a grama, com as pernas cruzadas, enquanto olho as fotos pelo visor da câmera, distraída. Até um cheiro particular atingir bruscamente minhas narinas alérgicas. Marlboro vermelho, o mesmo dos velhos cowboys da América, meu preferido.

Puxo forte a fumaça nociva que insiste em desfilar pelo meu nariz irritado, como num belo vício tentador. Fecho os olhos e levanto a cabeça, devorando o cheiro do cigarro e com uma forte vontade de acender um no mesmo instante. Mas prefiro continuar com a brincadeira que me instiga, flertando a fumaça e imaginando de onde ela vem. E principalmente, quem a solta.

Com a curiosidade típica, me viro lentamente, apenas com a cintura, apoiando as mãos na grama verde e ainda úmida de orvalho e avisto o depósito de nicotina da vez. E que depósito. A pele era branca, mas com um aspecto sujo, não de imundice,de falta de viço. A barba rala e malfeita camuflava um rosto anguloso, de maxilares largos e nariz afilado. Sombracelhas cerradas e grossas se encaixam perfeitamente naquela testa pequena, emendada com a cabeça mal raspada. Olhos pretos, pequenos e perdidos no horizonte observavam um casal de velhos passear com um grande São Bernardo babão e pesado. Ou talvez comia um grupo de garotas caminhar em volta do lago, com aquelas calças justas de ginástica que evidenciam todos os contornos graciosos de cada uma delas.

Pouco me importei. Me perdi em pensamentos sujos ao observá-lo apertar com os lábios finos e bem traçados o filtro alaranjado do cigarro, enquanto cerrava os olhos. Não parecia observar mais nada. A jaqueta grossa de um tecido que não reconheci estava repuxada até a altura dos cotovelos, evidenciando antebraços fortes e tatuados. Entre os pés, havia uma mochila velha e surrada, feita de couro e jeans claro, entreaberta e relaxada, assim como meus lábios estavam diante daquela visão que insistia em me deixar entorpecida.

Juro que me segurei para não tentar uma daquelas belas investidas vadias e baratas, que nenhum nerd no cio ou mero cafajeste resiste. Mas me controlei. Quis admirá-lo, não importa quanto tempo ele ficaria tão próximo, e ao mesmo tempo tão distante em pensamentos. Também quis fotografá-lo, num pensamento doentio de assim tê-lo por perto sempre. Tive vontade de devorá-lo, num instinto animal perdido entre o canibalismo e a sexualidade. Só não tive tempo de organizar todas essas idéias obscenas e sem sentido e o ver partir, carregando aquela mochila imunda em um dos ombros, enquanto o sol reaparecia por trás daquela (mal)dita nuvem.





quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Acima da cama, apenas janela

A pequena abertura da janela faz o vento soprar leve e o balançar das cortinas permite que os primeiros raios solares penetrem no meu quarto. Não sei por que minha mãe insiste em abrir esse desnecessário vão toda noite; eu gosto de permanecer na total penumbra, onde posso dormir, ouvir música, meditar ou simplesmente tentar não pensar. Seria ridículo dizer que sou uma pessoa sombria, visto que não há nada que eu goste mais na vida do que a felicidade. Inatingível. Depressivamente feliz: esse pode ser um termo melhor.
Mas antes que eu me ponha a refletir, preciso mesmo criar forças para me levantar. Devem faltar uns oito minutos para o despertador fingir que me acorda às exatas seis e trinta da manhã, tocando Highway to hell, do AC/DC. Nessa corrida da autoestrada para o inferno, quem geralmente ganha sou eu, pelo menos há umas duas semanas. Tenho que considerar todas as outras ocasiões que o jogo na parede, ou o ignoro, ou até mesmo começo a balançar os pés no ritmo grudento da música. Só que antes de levantar, vem o ritual de ficar rolando para os lados na cama, torcendo para o Bon Scott não berrar no meu ouvido, seguido de agarrar o meu travesseiro com força, abrir os olhos e levantar de uma só vez, para não correr o risco de tropeçar no sono e adormecer.
Hoje não quero abrir os olhos, nem acordar. Sinto que não será um bom dia, meus pensamentos indicam que nada melhor do que fugir do que não se tem certeza. Malditas idéias fixas. Levo a minha mão ao rosto, a fim de conter um espirro e sinto o inconfundível cheiro destilado entre os meus dedos. Atchim! Merda, gostaria de entender porque só me sinto mais livre quando tenho algo ilícito no meu corpo.
Não deveria chegar bêbada às quartas-feiras, mas em outra mão, não ligo a mínima para a minha má reputação.

Ok, eu ligo.

De um tempo pra cá eu me importo com tudo o que faço. Seria mais uma faceta desconhecida ou apenas o peso da idade, já que afirmam que não é apenas a lei da gravidade que começa a agir depois dos 20 anos? Já tenho 21, recém completados no estilo de uma boa farra regrada a álcool com todos os meus amigos populares. Foda-se tudo, preciso abrir os olhos. Tenho um parque com crianças melequentas para fotografar.
Ainda deitada, cruzo as pernas, e com um forte impulso me forço a sentar. Prendo os cabelos com um nó totalmente frouxo e ainda com os olhos fechados esboço um bocejo. Ligeiramente, levo as mãos à cortina e puxo, permitindo que os raios já quentes de uma bela manhã de verão inundem minha cama e meu rosto. Hora de abrir os olhos que teimam em se fechar. Ora, tenho que encarar a vida.