quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Acima da cama, apenas janela

A pequena abertura da janela faz o vento soprar leve e o balançar das cortinas permite que os primeiros raios solares penetrem no meu quarto. Não sei por que minha mãe insiste em abrir esse desnecessário vão toda noite; eu gosto de permanecer na total penumbra, onde posso dormir, ouvir música, meditar ou simplesmente tentar não pensar. Seria ridículo dizer que sou uma pessoa sombria, visto que não há nada que eu goste mais na vida do que a felicidade. Inatingível. Depressivamente feliz: esse pode ser um termo melhor.
Mas antes que eu me ponha a refletir, preciso mesmo criar forças para me levantar. Devem faltar uns oito minutos para o despertador fingir que me acorda às exatas seis e trinta da manhã, tocando Highway to hell, do AC/DC. Nessa corrida da autoestrada para o inferno, quem geralmente ganha sou eu, pelo menos há umas duas semanas. Tenho que considerar todas as outras ocasiões que o jogo na parede, ou o ignoro, ou até mesmo começo a balançar os pés no ritmo grudento da música. Só que antes de levantar, vem o ritual de ficar rolando para os lados na cama, torcendo para o Bon Scott não berrar no meu ouvido, seguido de agarrar o meu travesseiro com força, abrir os olhos e levantar de uma só vez, para não correr o risco de tropeçar no sono e adormecer.
Hoje não quero abrir os olhos, nem acordar. Sinto que não será um bom dia, meus pensamentos indicam que nada melhor do que fugir do que não se tem certeza. Malditas idéias fixas. Levo a minha mão ao rosto, a fim de conter um espirro e sinto o inconfundível cheiro destilado entre os meus dedos. Atchim! Merda, gostaria de entender porque só me sinto mais livre quando tenho algo ilícito no meu corpo.
Não deveria chegar bêbada às quartas-feiras, mas em outra mão, não ligo a mínima para a minha má reputação.

Ok, eu ligo.

De um tempo pra cá eu me importo com tudo o que faço. Seria mais uma faceta desconhecida ou apenas o peso da idade, já que afirmam que não é apenas a lei da gravidade que começa a agir depois dos 20 anos? Já tenho 21, recém completados no estilo de uma boa farra regrada a álcool com todos os meus amigos populares. Foda-se tudo, preciso abrir os olhos. Tenho um parque com crianças melequentas para fotografar.
Ainda deitada, cruzo as pernas, e com um forte impulso me forço a sentar. Prendo os cabelos com um nó totalmente frouxo e ainda com os olhos fechados esboço um bocejo. Ligeiramente, levo as mãos à cortina e puxo, permitindo que os raios já quentes de uma bela manhã de verão inundem minha cama e meu rosto. Hora de abrir os olhos que teimam em se fechar. Ora, tenho que encarar a vida.